E eu me pego lendo um livro que me faz reviver muitos momentos que já estão guardados dentro do baú de velhas lembranças inesquecíveis, onde eu guardo tudo que merece ser lembrado porque me faz ser quem eu sou.
"Eu tinha 17 anos, usava uma bolsa branca com alça de madeira e flores cor-de-rosa, carregava lá dentro um celular, umas notas de 50 da minha gorda mesada e um material de estudo pré-vestibular.
Ele estava morando em Curitiba temporariamente, tinha 33, trabalhava para o meu pai e tinha uma noiva que morava além da fronteira, ali em São Paulo.
Acho que a abordagem foi minha, mas tenho certeza que o provocador da situação foi ele. Hoje fico pensando e tentando entender o que ele via quando olhava para mim. Eu era magra, sem corpo de mulher ainda, usava cabelo no ombro sempre escovado, só usava tênis e botas de cadarço e sempre que ele me via estava cercada por meus pais e meus irmão mais velhos. Eu era só uma criança que fazia farra com as minhas amigas. Mas ele via alguma coisa em mim.
E isso nos levou a um ponto insustentável com ligações no meio da tarde, com sentimentos sufocantes.
Tudo começou naquele sofá e acabou com gritos pelo celular. Uma mágoa ardida que deixou cicatrizes, me tornou desconfiada e medrosa.
Não foi uma história ruim. Foi uma história linda antes de ficar salgada (que era o gosto do meu rosto todos os dias após nossos encontros, as vezes de suor e as vezes de lágrimas, outras dos dois).
Eu experimentei tudo de bom e de ruim matéria de relacionamento e foi a primeira vez que as minhas borboletas se tornaram mariposas.
Ele foi embora e nunca esqueci nossa história, nem sequer o cheiro do perfume que eu usava para ele. Com certeza ele nunca me esqueceu. Eu sei que ainda lembra do sofá, da janela, dos banquinhos do bar daquele apartamento onde nós deixamos nossas marcas.
Hoje eu tenho 24 e ele 40. QUARENTA ANOS. É casado e tem uma filhinha chamada Lara. Eu? eu não sou mais uma magrelinha pré-vestibular e nem passa pela minha cabeça a forma como a nossa história foi acontecer, porque ela só parece as páginas de um livro que outra pessoa escreveu"